domingo, 23 de novembro de 2014

Ostentação


Em algum lugar do Brasil, um garoto sai do barraco de madeira onde vive com a família, à beira de um esgoto a céu aberto, desvia de um rato e senta sobre uma pedra. De seu bolso, saca um celular com capacidade para armazenamento de vídeos e, em questão de segundos, três outros adolescentes o cercam ansiosos para assistir aos clipes de seus cantores favoritos. O som do aparelho se faz ouvir a alguns metros de distância, produzindo um cenário contraditório, o ambiente de miséria evidente é embalado por uma canção na qual o artista afirma possuir um cordão que vale um apartamento. À noite tem “baile”. As aspas se devem ao esforço mental que se faz necessário para chamar o evento de baile. Trata-se de um aglomerado de carros com som altíssimo, interrompendo o fluxo na via pública, com barracas vendendo doses de uísque falsificado e varejistas do tráfico circulando com sacolas cheias de drogas. Os meninos que assistiram aos vídeos estarão na festa entoando as músicas que celebram os tênis de mil reais e o estilo de vida dos milionários de camaro, iate e mansão à beira mar. Ninguém lá é rico, e a posição social que ocupam fica evidente na maneira como o “baile” é interrompido violentamente pela polícia. Com sorte, serão só balas de borracha. No dia seguinte, os meninos estarão em seus lugares, atrás do balcão da lanchonete, na cooperativa reciclando papelão, nas esquinas da favela... Todos guardando seus trocados para o tênis de mil reais.

O cenário descrito acima é típico da realidade atual das áreas urbanas brasileiras e exemplifica as contradições de uma visão de mundo que, cada vez mais, domina as mentes dos jovens e da sociedade em geral. São cada vez mais raros os sonhos que não envolvam, em sua base, algum bem de consumo de valor financeiro elevado. Já passa da hora de encararmos a incômoda verdade que é o fato de que necessitamos, com urgência, reformular o ciclo capitalista de produção/consumo/descarte, que está mais acelerado a cada dia.

Agregar valor a pessoas, tendo como base os bens materiais que ostentam, é estratégia cruel que gera infelicidade ininterrupta. A necessidade (criada pela mente humana) de consumir constantemente é equiparável à fome que nos obriga a comer diariamente para manter o funcionamento de nossas funções vitais. Consumimos de forma irracional os recursos naturais do planeta a fim de sustentarmos vaidades dispensáveis, alimentando um ciclo vicioso que envolve destruição da natureza e uso de mão de obra escrava, além de ensejar o surgimento de sentimentos de frustração na parcela da sociedade que, inevitavelmente, fica fora da sociedade de consumo. Parcelas, crédito, prazos... Diversos são os artifícios criados para que os mais pobres possam consumir os artefatos desnecessários, enforcando-se em dívidas, caindo na falência pessoal. Tudo para que não surja uma crise econômica por desaceleração do consumo. Irônico. Enfrentamos, frequentemente, crises por não sermos capazes de arcar com os custos, materiais e não materiais, do consumo irracional.

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