domingo, 23 de novembro de 2014

Ostentação


Em algum lugar do Brasil, um garoto sai do barraco de madeira onde vive com a família, à beira de um esgoto a céu aberto, desvia de um rato e senta sobre uma pedra. De seu bolso, saca um celular com capacidade para armazenamento de vídeos e, em questão de segundos, três outros adolescentes o cercam ansiosos para assistir aos clipes de seus cantores favoritos. O som do aparelho se faz ouvir a alguns metros de distância, produzindo um cenário contraditório, o ambiente de miséria evidente é embalado por uma canção na qual o artista afirma possuir um cordão que vale um apartamento. À noite tem “baile”. As aspas se devem ao esforço mental que se faz necessário para chamar o evento de baile. Trata-se de um aglomerado de carros com som altíssimo, interrompendo o fluxo na via pública, com barracas vendendo doses de uísque falsificado e varejistas do tráfico circulando com sacolas cheias de drogas. Os meninos que assistiram aos vídeos estarão na festa entoando as músicas que celebram os tênis de mil reais e o estilo de vida dos milionários de camaro, iate e mansão à beira mar. Ninguém lá é rico, e a posição social que ocupam fica evidente na maneira como o “baile” é interrompido violentamente pela polícia. Com sorte, serão só balas de borracha. No dia seguinte, os meninos estarão em seus lugares, atrás do balcão da lanchonete, na cooperativa reciclando papelão, nas esquinas da favela... Todos guardando seus trocados para o tênis de mil reais.

O cenário descrito acima é típico da realidade atual das áreas urbanas brasileiras e exemplifica as contradições de uma visão de mundo que, cada vez mais, domina as mentes dos jovens e da sociedade em geral. São cada vez mais raros os sonhos que não envolvam, em sua base, algum bem de consumo de valor financeiro elevado. Já passa da hora de encararmos a incômoda verdade que é o fato de que necessitamos, com urgência, reformular o ciclo capitalista de produção/consumo/descarte, que está mais acelerado a cada dia.

Agregar valor a pessoas, tendo como base os bens materiais que ostentam, é estratégia cruel que gera infelicidade ininterrupta. A necessidade (criada pela mente humana) de consumir constantemente é equiparável à fome que nos obriga a comer diariamente para manter o funcionamento de nossas funções vitais. Consumimos de forma irracional os recursos naturais do planeta a fim de sustentarmos vaidades dispensáveis, alimentando um ciclo vicioso que envolve destruição da natureza e uso de mão de obra escrava, além de ensejar o surgimento de sentimentos de frustração na parcela da sociedade que, inevitavelmente, fica fora da sociedade de consumo. Parcelas, crédito, prazos... Diversos são os artifícios criados para que os mais pobres possam consumir os artefatos desnecessários, enforcando-se em dívidas, caindo na falência pessoal. Tudo para que não surja uma crise econômica por desaceleração do consumo. Irônico. Enfrentamos, frequentemente, crises por não sermos capazes de arcar com os custos, materiais e não materiais, do consumo irracional.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A Caixa

Um jovem guerreiro, fisica e mentalmente exausto e atormentado por dores intensas, repousava em sua casa, usando de seu tempo livre para cuidar das feridas oriundas de suas últimas batalhas. Suas inúmeras cicatrizes se dividiam em dois grupos: as que lhe causavam orgulho e as que lhe traziam profundo remorso. A elas observava quando foi interrompido por uma chamado à porta.
Parou seus afazeres para atender e deparou-se com uma pessoa que, embora visivelmente fragilizada, ostentava um belo sorriso. Quase tão ferida quanto o guerreiro, a visita deixou transparecer que necessitava de cuidados. Sempre pronto a acolher o próximo, o orgulhoso combatente tirou forças de onde não tinha e, esquecendo de si próprio, gastou todos os seus remédios na tarefa de cuidar das feridas de quem lhe pediu socorro.
Após breve período desfrutando da dedicação do bravo lutador, a simpática figura lhe entregou uma caixa, dentro da qual alegou existir uma jóia de imensurável valor. Dizendo não poder contar com nenhuma outra pessoa no mundo para que guardasse o objeto em segurança, virou-se e saiu, pedindo ao guerreiro que a esperasse. Ele, de espírito nobre, não sentiu necessidade de cobrar de sua visita que lhe retribuísse a amizade que lhe dedicara, o que seria razoável, tendo em vista ter deixado de cuidar de suas próprias feridas para curar as alheias. Ao invés disso, sentiu-se honrado pela confiança demonstrada e tratou de proteger a caixa, crendo no incalculável valor de seu conteúdo.
Eis que um dia, a caixa abriu-se acidentalmente, desagradando a alma do soldado ao fazer-lhe notar que o que protegia com a própria vida era nada mais que um invólucro vazio. Triste, partiu em busca de uma resposta, à qual encontrou de forma inesperada, ao deparar-se com o sorriso que tanto admirou, em uma máscara caída ao chão.
De coração nobre, o guerreiro não nutriu ressentimento algum. Entendia a dinâmica das lutas que travava e a importância do ensinamento contido em cada golpe que recebeu na vida. Sua verdadeira jóia era a lição aprendida.
Enterrou a máscara e a caixa...
Tempos depois, recebeu notícias da visita de outrora. Perdendo a máscara pela estrada, não tinha mais o sorriso que encantava aos que encontrava, restou apenas um rosto triste, que chorava sobre uma coleção de caixas vazias.


Dedicado aos guerreiros que não perdem a fé na humanidade, acreditando que nem todos os sorrisos são gravados em máscaras e que nem todas as caixas estão vazias. Aos que não desperdiçam seu tempo na Terra distribuindo embrulhos vazios.

Gabriel de Lima

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Eleições do Futuro

Ano 2022. Campanha eleitoral.
Bom dia, caros eleitores.

Acabo de me aposentar depois de anos de serviços prestados à Polícia Militar do Estado de São Paulo. Tenho como referência o meu impressionante currículo de serviços prestados à população do estado. Respondo a 150 processos por abuso de autoridade e matei 120 pessoas.
Pretendo, com o seu voto, representar o Estado de São Paulo como deputado federal, ao lado de meus aliados do PFC, Partido da Família Cristã, (também conhecido como Pentecostal Família e Chacina) representar os interesses dos homens de bem, defendendo os valores da família contra a ditadura das minorias.
Vivemos tempos sombrios, nos quais um pai de família não pode mais proteger seu filho das influências culturais e comportamentais que não estejam de acordo com os valores da família cristã. Há negros morando em nossos condomínios, dividimos filas de hospitais com homossexuais, não se pode mais encoxar uma mulher no metrô e o aeroporto parece uma rodoviária cheia de nordestinos circulando em nossos aviões. É a ditadura das minorias, que nos oprime contra a parede com sua pauta de reinvindicações infundadas.
Atentem os eleitores que, recentemente, a Rede Globo veiculou um capítulo de novela no qual um personagem consome um cigarro de maconha e continua vivo! Esse tipo de apologia ao excesso de liberdade afundará a sociedade no crack, no sexo interracial e na macumba.
Se continuarmos caminhando nesse sentido, nossos filhos estarão condenados a viver em uma sociedade na qual esposas têm vontade própria e policiais dão bom dia a moradores de periferia.
Ass: Deputado Federal – Tenente Super Soldier – 99 765
Peço seu voto e seu apoio aos demais candidatos da coligação “Homens Brancos pela Família”:

Deputado Estadual – Coronel Mata Fácil 99 111
Senador – Tadeu White Power 99 357
Governador – Apóstolo Zé do Dízimo 88
Presidente – Jair Bolsonaro – 11

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

A Salvação de Marco

Marco lavou as mãos esfregando-as com força, o rosto angustiado refletiu no espelho do banheiro uma imagem que ele evitou olhar. Secou, com a toalha de rosto, até os espaços entre os dedos, para depois jogar a toalha no cesto de roupas sujas.
Ao olhar para baixo, sentiu o coração disparar bruscamente, quase como um golpe no peito, de dentro para fora. Se apressou em levantar a calça e a cueca, ambas caídas à altura das canelas deixando exposto o membro sexual do jovem, ainda com tamanho razoável. A visão do orgão ainda sob efeito da estimulação sofrida minutos antes o fez voltar aos pensamentos que tentava evitar. A cantora da televisão, a vizinha, a jovem mãe do amigo da igreja e até a própria noiva passearam por sua mente, era como lutar contra um grupo numeroso de inimigas. Marco sentiu-se moralmente linchado. Quando sua imaginação vestia as roupas na noiva, a popstar do programa de auditório cantava em seus ouvidos, quando emudecia a inconveniente voz, a vizinha lhe tocava...
Saiu do banheiro com o volume incômodo sob a calça, pensou em pegar a Bíblia, mas entende como uma temível falta de respeito tocar no Livro Sagrado com tanta impureza em seu coração, não é o momento adequado.
Se afastou da televisão, do rádio, das revistas e do jornal sobre a pequena mesa da sala. Se afastou da janela do apartamento da Cohab, era verão, as ruas do bairro estavam cheias de gente com pouca roupa e carros com músicas promíscuas, não era conveniente olhar.
Sentou-se na cama, cobriu o rosto com as mãos e começou a orar fervorosamente, pedindo perdão por ter-se deixado levar para a prática dos estímulos sexuais solitários. Marco sentiu que devia recomeçar sua relação com Jesus, e agarrou-se à sua doutrina com uma força de vontade maior.
Durante dois anos, o filme se repetiu todos os dias na cabeça de Marco. Nos meses finais desse período, ele acordava, olhava ao seu lado, via a esposa deitada, com a respiração ofegante e a barriga enorme de quem carregava trigêmeos.
O dinheiro era curto, Rachel era dona de casa e não gerava renda, o poder aquisitivo do bom cristão lhe permitia criar, com alguma dignidade, um filho. Deus lhe enviou três... Marco se dividiu entre o amor pelas crianças que ainda não haviam nascido e a preocupação com a "carga" excessiva que teria de suportar pelos próximos anos. A doutrina de Marco e Rachel não lhes permitia o uso de métodos contraceptivos, um quarto filho seria o fim de qualquer esperança de dignidade.
Marco consultou seu sacerdote, Deus haveria de lhe abrir uma excessão, afinal de contas, Edir, Silas e Valdemiro lhe consumiriam todos os recursos, a única maneira de manter vivas as atividades íntimas entre marido e esposa seria com ajuda médica.
Pedido negado. Não houve excessão para Marco. Em tese, não havia para nenhum cristão. A resposta do sacerdote foi um desafio à fé do esforçado homem: "Em frente, Marco. Deus proverá!"
Para a culpa sentida pelas ereções involuntárias: "Deus proverá!"
Para o medo de engravidar Rachel mais uma vez: "Deus proverá!"
Para a falta de força de vontade para suportar dormir ao lado da mulher amada, durante meses, sem a tocar na intimidade: "Deus proverá!"
O leitor amigo deve estar pensando que Marco sucumbiu, que deitou por terra os dogmas de seu sistema de crenças, entregando-se a uma vida "mundana" e pecaminosa, na qual faz sexo com sua esposa e cria honestamente três filhos. Não. Marco resistiu até que a misericórdia divina o alcançou em definitivo. O "Deus proverá" do querido sacerdote o alcançou um minuto antes da entrada de um prostíbulo, na forma de um ônibus libertador, que o livrou das tentações do inimigo com uma única pancada. Marco está salvo.
Rachel? Rachel recebe uma pensão razoável. Casou-se de novo, mas não no civil, para não perder a pensão. Cria com amor seus três filhos e o filho de seu novo marido. Ora com fervor todos os dias, ouve hinos de louvor enquanto lava as roupas e deu uma Bíblia de presente ao vizinho macumbeiro.
Rachel sorri com mais frequência, Rachel soa, geme e arranha as costas de seu bom cristão sempre que ficam sozinhos. Para ele, Deus abriu uma excessão.
Rachel é quase feliz.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Malicioso e Discreto

Ele a atrai de uma forma diferente, parece dosar suas qualidades com uma inteligência acima do normal. Exibe virilidade em um dado momento e, no minuto seguinte, impressiona demonstrando sofisticação incomum.
Se lhe parecer necessário, fala um português complexo e de vocabulário rico, mas é capaz de, simultaneamente, manter conversações no dialeto da malandragem, exibindo com tal linguajar uma familiaridade que só é possível a quem conheceu de perto a cultura dos guetos da cidade. É difícil imaginar que tipo de história há por trás de tais habilidades.
Ele olha nos olhos quando fala, parece bater à porta da alma alheia com um olhar penetrante e desafiador, que ameaça tornar-se invasivo e incômodo, mas se desvia antes que tal mudança aconteça, deixando-a cheia de dúvidas. Ela sente o gosto de "quero mais", sente que não teve tempo o suficiente para desvendar os mistérios por trás daquelas retinas. Deseja que o olhar dele se volte novamente para a direção dela. Ele parece fazer de propósito, age da mesma forma quando a beija, nunca deixa um "ponto final" no que está fazendo, há sempre a impressão de que vai retornar a qualquer momento, para terminar o que ficou incompleto.
A pausa na comunicação é angustiante, gera ansiedade nela. Ele observa um grupo de rapazes próximos da churrasqueira, ela olha na mesma direção que ele, só para certificar-se da ausência de concorrência, sente-se despreocupada quando percebe só haver homens naquele canto.
Ele se levanta e vai na direção dos que observa, seu caminhar deixa transparecer um leve gingado de ombros e sua linguagem corporal ao cumprimentar os amigos exibe gestos veementes e um pouco chamativos. Ri alto, interrompe a risada ao ouvir algo de uma jovem mulher que se aproxima, seu rosto fica sério por um segundo, mas a gravidade do semblante se desfaz enquanto ele diz algo próximo ao ouvido da garota.  Finda os cumprimentos e a breve conversa com sua interlocutora momentânea, caminha de volta à mesa com o mesmo gingado, sem se descuidar do copo que segura com a mão direita. Ela o aguarda voltar com uma das pernas movimentando-se incessantemente, em sinal de ansiedade.
Ele sorri, de forma maliciosa e discreta.
Ela pergunta com grosseria sobre a mulher com quem ele acaba de falar, ele não demonstra abalo no semblante, a olha dos pés à cabeça, com atenção especial ao decote, ela se irrita com a ousadia e o ofende. Ele se desculpa de modo sarcástico e movimenta o pescoço, demonstrando buscar algo em diversas direções diferentes, ela segura seu rosto com as duas mãos, voltando-o para si própria, ele volta a olhar para o decote, com a aprovação dela.
Alguns beijos e carícias mais ou menos comportadas se iniciam, levando-os ao desfecho em local reservado. Ela tem mil ideias, das quais revela uma ou duas, ele sabe que não é tudo e critica suas barreiras morais. Ela se questiona até que ponto ele pôde tê-la decifrado, o malandro não dá o braço a torcer.
Compromissos interrompem a diversão. A vida real os reclama para si, ou seria a vida real aquilo que acabaram de experimentar em cima de uma cama? Ele se despede, deixando novamente o gosto de "quero mais", vai embora encarando-a por alguns segundos, é como se soubesse de algo que ela não sabe. "Como ele faz isso?" Ela se pergunta, minutos antes de cair no sono. Ele volta, beijos percorrem partes sensíveis da pele enquanto ela se arrepia, sorri, sussurra, suspira e abre os olhos, só para perceber que, embora os arrepios sejam reais, ela está sozinha na cama. Ele não voltou, pelo menos, não fisicamente.
A cabeça dói, a festa gerou ressaca. Ele aguentou a bebida, ela não. Ela pega o celular, uma mensagem provocante a aguarda, o conteúdo descreve quase com exatidão o sonho que se misturou com a realidade sobre a cama, que agora parece enorme sem ele para preencher o espaço vago. "Como ele faz isso?" Ela se pergunta de novo, enquanto disca, contraindo os lábios.
Em outro canto da cidade, um celular vibra dentro de um quarto. Seu dono olha o visor, tem o corpo despido da cintura para cima e uma toalha sobre o ombro esquerdo, lê o nome no aparelho e, em seguida, abre a mão com tranquilidade e alguma displicência, deixando-o cair sobre a cama. Seus compromissos o aguardam, volta-se na direção do banheiro e caminha.
Dois passos antes de entrar no recinto onde se limpa, olha para trás, por cima do ombro direito, sem virar o tronco e, como se alguém o estivesse vendo, sorri, de forma maliciosa e discreta...

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Casamento



Ele abre os olhos lentamente, não sabe quanto tempo se passou. A visão clareia aos poucos, vê gente de branco, lembra de alguém ter gritado algo com “ambulância” logo que ele caiu. É um alívio, tanta gente de branco... Deve ser o Céu.
Sempre se perguntou se iria para o Céu após a morte, as lembranças das noitadas na Rua Augusta, as experiências sexuais e químicas e o estilo de vida politicamente incorreto sempre assombraram o católico que ele sufocou em algum lugar do seu subconsciente.
Pouco a pouco, percebe que a dúvida o atormentará ainda mais alguns anos. Está vivo, ela está ao lado da cama, olhando para ele com cara de choro. Segura sua mão, pergunta se está tudo bem. Mas há algo errado, ela está vestida de noiva! Notar o vestido o faz voltar algumas horas no tempo e, antes que pudesse dizer qualquer palavra, embarca, como que em transe, numa pequena viagem em busca de respostas...
Ela dizia que gostava dos pelos que ele tem no peito, não sabia o incômodo que eles causavam por baixo de um terno numa cansativa noite de verão.
Ele sentia o suor escorrer sob a camisa, fazia cócegas, mas não podia largar a noiva para se coçar no meio da sessão de fotos.
Os flashes golpeavam as retinas do casal incessantemente, acrescentando mais um elemento estressante à pesadíssima maratona que percorriam para cumprir um protocolo social. O noivo disfarçava a irritação, tinha a sensação de que só ele não bebeu o suficiente para achar graça em tudo aquilo.
Sua mente volta mais uma hora no tempo, sai do salão de festas e adentra a igreja. Ele mal conseguia manter a pose na hora do sermão do padre, não aceitava que seu casamento precisasse do “sim” daquele sujeito. Uma instituição que prega a manutenção da virgindade até o matrimônio ostenta poder ao autorizar a união de um casal já acostumado ao Kama Sutra. Hipocrisias à parte, casar de branco era o sonho dela. Haja dinheiro...
De volta ao salão, os flashes davam uma folga, mas só depois da patética foto em que tomam champagne com os braços entrelaçados. Ele nem gosta de champagne...
Seus olhos percorreram o salão, seus amigos se divertiam longe dele. Chopp, caipirinha e petiscos aos milhares. Um custo altíssimo para o seu padrão de vida, mas talvez uma despesa paga em prestações a perder de vista seja o termômetro ideal para medir o sucesso de um casamento moderno. A vitória consiste em fazer a união durar mais que a dívida contraída com a festa.
Volta alguns anos e lembra de quando se apaixonou, ela parecia perfeita. Chegou a procurar algum defeito, sempre foi um cara realista, ela tinha que ter algum problema... Parou de pensar no assunto quando conheceu a tia gorda. Chega a pensar que alguns homens podem ter “trocado de lado” ao tomarem tal criatura como referência de mulher. Sempre falando alto, com a barriga escapando por baixo da blusa, os mamilos visíveis sob o algodão das roupas, como se berrassem “estamos aqui!” Tudo acompanhado pela maldita maquiagem cafona, com a qual sempre lhe borrava as bochechas. Sim, ela tinha um defeito: ser sobrinha da tia gorda...
Volta ao salão, no fim da festa ele já pedia a Deus para que o Buffet encerrasse logo a cerimônia. “O momento mais importante da sua vida” diziam alguns de seus parentes, ele pensava: “A balada mais cara da minha vida.” Percebeu, perspicaz que era, que aquela noite haveria de ser mais cansativa para ele próprio do que para os garçons, seguranças e trabalhadores em geral envolvidos no evento. Chegou à conclusão que é de uma injustiça incalculável que os protagonistas do evento estivessem, na verdade, servindo aos convidados, proporcionando-lhes a farra e a bebedeira gratuitas.
Todos os amigos já estavam bêbados, um outro estado de espírito. Ele se enfurecia em segredo, estava sóbrio o suficiente para notar a chegada da tia gorda, que o abraçou com as mãos cheias de coxinhas. Foi a última coisa que notou antes de desmaiar...
Volta ao presente.
-Oi, amor. Estraguei a festa?
-Imagina?! Isso lá é hora de se preocupar com festa? Quase me matou do coração, achei que ia perder o marido no dia do casório!
-Tá tudo bem. Foi só o nervoso, desculpa pelo susto...
-Você não tem que pedir desculpas. Você tem é que repousar! Estamos esperando o resultado dos exames, vai precisar se cuidar hein rapaz?! Sorte sua que agora me tem como esposa! Agora olha, tem uma pessoa que te adora querendo te ver!
Ela sai da sala, ele respira fundo. Imagina que a situação talvez não seja tão ruim, ser paparicado pela mulher que ama é um sonho para a maior parte dos homens, talvez por isso eles sempre façam o costumeiro drama masculino toda vez que adoecem.
No final das contas, aquilo parecia mesmo o Céu...
Só parecia! Ouve passos, vira o pescoço na direção da porta pela qual sua esposa saiu e a vê retornando acompanhada. Não confia nos seus olhos, esfrega as vistas, faz um esforço para levantar um pouco o tronco com relação à cama e vê de mais perto. A tia gorda se aproxima, sorriso aberto, batom nos dentes, mamilos gritando. Lá vem o beijo.
Ele fecha de novo os olhos, pela última vez.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Uma Lágrima Guardada

Ela amava todos os trejeitos dele, aquele jeito de malandro, o gingado mal disfarçado ao andar, as gírias que lhe escapavam mesmo quando ele tentava impressionar com um palavreado mais complexo. Tudo tão diferente do contexto no qual ela havia construído a sua própria personalidade, que chegava a intrigá-la o fato de gostar tanto daquele sujeito diferente.
A fotografia ao lado da cama era sua companheira noite após noite, tudo que havia sobrado dele, o único registro capaz de fazê-la crer que aquele sorriso não havia sido apenas um sonho. A foto do rapaz sem camisa, com um cordão dourado brilhando no peito, os dedos em gestos típicos de cumprimentos da periferia, o rosto levemente inclinado para cima, como que numa atitude desafiadora, mesmo que inconscientemente. Tudo totalmente fora dos padrões sob os quais ela foi criada. Um outro mundo, mais interessante, com mais calor humano, um outro modelo de vida em sociedade no qual as pessoas amam e odeiam com uma intensidade mil vezes maior do que no bairro dela, tão frio que mais parecia um bloco de gelo encravado no coração da selva de pedra, um território morto e sem sentimentos cercado por uma floresta em que a vida arde e se mostra veemente em todos os seus aspectos, dos mais belos aos mais cruéis.
Lembrava o susto que havia tomado ao descobrir o meio pelo qual ele vivia, armas em punho, negócios ilícitos, comentários sobre atrocidades que teria cometido contra inimigos. Seria possível? Não conseguia conceber a idéia de aquela pessoa tão inteligente, carinhosa e protetora pudesse ser, de fato, um daqueles monstros que o noticiário sensacionalista mostra todos os dias. Na TV, eles pareciam totalmente desprovidos de sentimentos. Haveria naqueles homens algemados em delegacias, que se diferenciavam dela e de todos ao seus redor até pela aparência física, algum resquício de humanidade? Teriam amigos? Familiares próximos? Pessoas a quem amassem ou pessoas que os amassem do jeito que eram? Se eram tão humanos, por que a guerra que parecia haver nas ruas não cessava? Era estranho digerir a informação de que o mundo lá fora era muito mais complexo do que parecia ao olhar superficial da classe média paulistana.
Lembrou da viagem ao litoral, a última vez em que estiveram juntos. Ele parecia distante, disse que tinha trabalho a fazer, algo sério para resolver, não quis entrar em detalhes. Até nisso era protetor, ele a poupava do que ele próprio tinha de pior. Seu tom era de despedida em muitas ocasiões, parecia pressentir que se aproximava o capítulo final de suas aventuras por esse mundo torto, no qual os heróis e os vilões muitas vezes se confundem.
No último dia, ela acordou antes dele, preparou a mesa com o café da manhã e o esperou despertar. Ele levantou cambaleando, não a encontrou no leito, foi ao banheiro, escovou os dentes para poder beijá-la demoradamente sem receio. Chegou a cozinha com o rosto e cabelos ainda molhados, ela ria, ele nunca se secava direito.
Se entenderam com olhares, ele viu a mesa, ela o observava, esperava um “obrigado”, ao invés disso, uma lágrima escorreu pelo rosto dele.
- Chorando por quê? Eu fiz alguma coisa de errado?
Ele responde, com um tímido sorriso no rosto:
- Tô chorando de felicidade, isso também existe ué...
- Mas assim? Do nada?
- Quando eu te conheci eu não esperava tanto, nem é pela mesa, certo... Nunca fizeram tudo isso pra mim, mas é por tudo. Nunca pensei que eu fosse chorar de felicidade algum dia, achava que choro era pra velório...
- Cê tá bem? Nunca te vi assim...
- Abre a mão.
Dito isso, ele tomou a mão direita dela, mantendo-a aberta, esfregou um dedo na lágrima de seu próprio rosto e fez com que o dedo pousasse na palma da mão delicada que ele segurava. Fechou a mão dela com cuidado, olhou em seus olhos, ainda chorando, e disse:
- Guarda. É tudo que eu sou capaz de ser de bom, todo sentimento bom que eu sou capaz de ter dentro de mim, tudo que eu posso ser capaz de me tornar um dia, todas as palavras bonitas que eu for capaz de dizer, tudo que eu conseguir fazer de bom nesse mundo. Tudo isso escorreu por esse olho agora. Guarda com você pra sempre...
Ela chorou naquele dia, chorou comovida. Era uma alegria que não se podia explicar, a descoberta de que o mundo é capaz de oferecer sensações e momentos que jamais foram imaginados antes, a descoberta de que a vida é muito mais intensa do que parecia. Na verdade, ela sentiu como se estivesse nascendo naquele dia, sentiu que, pela primeira vez, era viva e intensa, como ele sempre foi.
Os momentos bons passam, são levados pelo tempo, que é rápido como as balas que trazem as tragédias. Dias depois do momento mais bonito de sua vida, ela recebeu a notícia por meio de um desconhecido: Um tiroteio estúpido. A “quebrada” à qual ele se referia com tanto carinho, finalmente mostrou sua face mais cruel, varreu de suas ruas o filho que tanto a amou. E pensar que ele se orgulhava tanto de pertencer àquele lugar... E pensar que todos eles se orgulhavam, tantos e tantos iguais a ele, com sonhos interrompidos, com tão pouca idade e aparentado já ter vivido tanto, que eram capazes de ostentar em seus caixões semblantes tranquilos e um aspecto de quem encontrou uma paz pela qual esperou durante toda a vida. A paz de quem acaba de deixar uma guerra.
Hoje ela chora, mas chora de tristeza. Está intensamente viva e sabe que viver intensamente não inclui só felicidade. Sofre intensamente, mas chora com sua mão direita aberta e, em meio ao choro, observa a palma de sua mão e esboça um sorriso, um sorriso fraco, mas ainda sim, um sorriso.
É como se aquela lágrima bonita ainda estivesse lá.